Segredos de prateleira

Livros - Van Gogh

Não acontece muitas vezes no ano, mas sempre chega o dia em que a minha estante de livros alcança o seu nível insustentável e, portanto, o momento de reservar algmas horas para a reorganização e limpeza da dita cuja.
E dela começam a sair maravilhas.

No início encontro botões extra de camisas e calças que nunca foram necessários (os botões).
Encontro livros que me foram emprestados há tempos, e cujos donos devem estar agora limpando suas estantes e notando os vazios empoeirados, já que eu mesmo noto a ausência de alguns dos meus ilustres que tenho certeza estavam por ali até pouco tempo. Livro emprestado volta trocado, todos conhecem o ditado.

Daí começam a saltar as pequenezas: papéis com números de telefone anotados, sem os nomes ao lado. Papéis com nomes anotados sem nenhuma outra dica sobre quem seria o tal (um autor estreante? um pintor de paredes? um clínico-geral excelente? uma rua onde vendem miniaturas em madeira das sete maravilhas do mundo?). Encontro clipes para papel, origamis desfeitos, listas de supermercado. Enfim, tudo sai dali e vai parar no seu devido lugar (o lixo, é claro).

Então parto para os livros. Noto a desordem e logo imagino a cara feia dos autores se descobrissem seus livros de cabeça pra baixo, ou as lombadas viradas pro fundo, transformando suas obras em anônimos blocos de papel. Faço o meu melhor. Coloco bem pertinhos “A Dança do Universo” e algum livro do Stephen Hawking. Deixo o Paulo Leminski conversando com o Arnaldo Antunes (e a Alice Ruiz ali ao lado, a uma distância que lhe dê conforto). Se a prateleira estiver ficando muito pesada (Sartre + Baudelaire + Alan Poe) eu trato logo de colocar o Luís Fernando Veríssimo no meio, pra fazer uma graça com os pensamentos alheios. Chamo o Paul Auster pra conversar com o Chico Buarque; Haroldo, Augusto e Décio sempre juntinhos dos seus cummings, James Joyce e Maiakovski; os Harry Potters todos tentando se esconder em algum canto mais escuro.

Mas de que adianta não é?
Retorno à estante em poucos dias, uma semana, um mês, e os meus ilustres já estão todos esparramados, bêbados, trocando de lugar pra ampliar a linguagem. O Carlos Drummond sempre corre pra perto do Houaiss; Pablo Neruda e Vinícius de Moraes numa disputa poética pra cima da Cecília Meirelles; e ainda pego no flagra o Santiago Nazarian em cima do Jogo da Amarelinha! Aguenta firme Cortázar.

Os livros da minha estante se conversam e se modificam. Tudo de acordo com quem frequenta os mesmos lugares. Lado a lado livros quadrados, quadrinhos, poemas e mapas trocam palavras e idéias, com o certo intuito de me confundir sempre que a eles eu voltar.

Não tendo muito o que fazer, deixo acontecer.
Depois me entendo com os meus botões.

One Response to “Segredos de prateleira”

  1. Applyrx Says:

    Applyrx

    Applyrx

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